Filosofia da Educação

Educador: utopia ou possibilidade?

 

A paixão é o segredo do sentido da vida

(Rubem Alves).

Partindo de uma visão crítica que se busca fazer da realidade, embasada em pensamentos e idéias que se direcionam à própria vida, e que, por sua vez, possuem um caráter questionador e reformador diante da situação social que nos é apresentada, (seja pelas próprias histórias que a História nos fornece, à variação de suas formas de transmissão, além dos próprios veículos de comunicação social[1], que, há tempos, desde o advento da modernidade, se ligam a outras estruturas sociais na composição de sua constituição, organização, manutenção, funcionamento e propagação de conteúdos) tanto o pensamento de Rubem Alves, quanto o de Marilena Chauí, atualmente, se fazem cada vez mais presentes neste intento.

Hoje, talvez mais do que nunca, é reconhecida e afirmada a falta de educadores em nossa sociedade. Com as novas demandas sociais que presenciamos, em um mundo globalizado, na chamada pós-modernidade, a prática do ensino se estende à função de transmissão de conhecimentos, regidos cada vez mais por sua tendência ao tecnicismo, dentre as inúmeras profissões que desempenham funções sociais consideradas, ainda hoje, “legítimas”. E, sendo reconhecido, apenas como tal, o papel do educador cede lugar às aspirações dessa demanda social mercadológica, das regras, princípios e normas sociais institucionalizadas na base do modelo da eficiência econômica do saber e da eficiência da técnica, e dos progressos da ciência. Modelos institucionalizados, economicamente viáveis, em que o saber é medido por sua utilidade, sua aplicabilidade prática e econômica, além de servir, principalmente, como aquilo pelo qual é garantida a própria manutenção de um pensamento unidimensional, unilateral e totalizador[2] da realidade, pensamento cada vez mais presente e dominante, que dispõem de mecanismos ideológicos para a garantia do funcionamento desse mesmo modelo de sociedade, e que utiliza variadas formas de eliminar, subverter, camuflar, deturpar e encobrir certas condutas e posições de pensamento críticas à sociedade como um todo, à estrutura política, às leis econômicas de mercado, à desigualdade social e pobreza, e ao império da indústria cultural como fenômeno de massa que transforma a cultura comum de um povo, sua riqueza, direito de propriedade, e seu acesso livre e democrático, à redução de sua esfera ao seu “livre” e “democrático” consumo como mercadoria[3].

Dessa forma, podemos pensar que, atualmente, é o professor que ocupa o lugar do educador na sociedade, uma vez que o papel do educador vem se desvanecendo cada vez mais de seu sentido próprio, autêntico e genuíno, como antigas profissões, antigos lugares habitáveis na coletividade, que vão perdendo espaço no decorrer do tempo, das mudanças, dos progressos[4]... O professor é o burocrata de uma ordem vigente, um modelo de funcionário que serve sem reservas aos interesses de terceiros, seja do Estado, ou de empresas educacionais, interesses que não lhe são próprios, pois não dizem respeito às paixões, à subjetividade, à expressão de suas próprias realizações (semelhantes as do artista criador, lúdico), há “apenas” o salário. Mas, no “fim das contas”, ele é tudo, pois ele é fim de tudo, ou seja, é o fim para, por e pelo qual construímos projetos, dentro de uma sociedade econômica e politicamente (des)estruturada. Assim, vemos na figura do professor, uma pessoa, ou alienada, que não se despertou criticamente para a vida em seu todo, ou, alguém que cansou de lutar por idéias próprias se comprometendo com seus sonhos pela negação, repressão e castração a que eles foram acometidos pela crua e bruta realidade. Talvez quem saiba, em suas fantasias, ou em seu inconsciente (de poeta, haja um poeta) haja não a utopia, mas um mundo possível a ser construído em meio às circunstâncias, quaisquer sejam elas[5]. Este é o educador, aquele que nos remete à figura da esperança, de um sonho alimentado pela própria esfera da cultura e da educação, um sonho que não pode e nem quer morrer, pois, é através dos sonhos, das criações, dos pensamentos altos, das aspirações, e das idéias, que se pode falar da cultura, da construção e garantida de seu patrimônio à humanidade através da educação e da memória. “O fenômeno da educação e o fenômeno da cultura estão intimamente imbricados. De fato, a educação é a forma pela qual as diferentes culturas sobrevivem e se perpetuam através dos tempos, porque é através dela que as culturas transmitem, através das gerações, os conhecimentos adquiridos e fazem com que os indivíduos internalizem os valores, normas e modos de comportamento por elas considerados legítimos”. (BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 22. ed. São Paulo: Brasiliense, 1981).

Entretanto, se a figura do educador é um despertar do professor, este mesmo educador, se encontra atualmente, em crise. E, diante da atual situação da educação, encontra nela sua morte, seu fim, e fim de um espaço e lugar possível. Esse fenômeno se torna cada vez mais presente hoje, uma vez que é em nome do progresso científico que se moldam os novos modelos de racionalidade, de visão da realidade, que implicam diretamente sobre a educação, pois o conhecimento passa consequentemente por mudanças significativas. Isso ocorre de várias maneiras. Uma delas, apontada por Rubem Alves, é o processo de racionalização e de gerenciamento da vida profissional do professor[6], em que sua qualidade, como pessoa que ensina, é medida pela quantidade de produções intelectuais, acadêmicas, títulos, especializações, entre outros, que não medem realmente a qualidade do ensino oferecida pela pessoa. A preocupação com a educação, que deveria ser primeira, acaba por prestigiar bons profissionais, boas carreiras, que, por sinal, são gerenciadas por aqueles que os contratam, os pagam, e assim, também os controlam, sejam do ensino privado ou público. Outro de seus argumentos citados refere-se à definição de educação para a sociologia, ao se fundamentar que ela tem ligação direta com as “instituições, classes, grandes unidades estruturais, que funcionam como se fossem coisas, regidas por leis, e totalmente independentes dos sujeitos envolvidos[7]”. “Uma vez aceitos tais pressupostos, como falar sobre o educa­dor? Somente para dizer, talvez, que algumas pessoas têm a ilusão de poderem ser educadoras, porque o fato é que o controle, já há muito tempo, passou das mãos de pessoas para a lógica das instituições[8]”.

 

Segundo Marilena Chauí, a morte da pedagogia (que se consolida através do domínio cientifico, ou do chamado “progresso tecnológico”) como arte de ensinar, trouxe novos rumos à educação[9]. Dentre eles, a escola se direciona à qualidade de reprodutora de ideologia e das relações de classes, além de formadora do que poderia se chamar de exército alfabetizado e letrado de reserva[10]. Através da noção de competência, a ciência legitima seu poder de intimidação sócio-política. A competência destes discursos e práticas científicas é determinada pela divisão das classes sociais. Da noção de competência científica, surgem também as múltiplas falas de especialistas, falas técnicas e científicas que manipulam e dominam um saber específico como algo tão transparente, sólido e garantido, que não permitem nenhum espaço às outras pessoas, espaço para dúvidas, críticas, questionamentos, ou reflexão...

Dentre outros rumos da educação resultada desse progresso tecnológico, para Chauí, a cultura, ao ser posta como improdutiva pela divisão social do trabalho, deverá de algum modo, compensar essa “improdutividade”. A compensação, que se dá de várias maneiras, resulta sempre no mesmo, ou seja, na instrumentalização da produção cultural[11]. Entre os perigos dessa instrumentalização da cultura, há a identificação entre conhecer e pensar[12]. Ao colocar o conhecimento e sabedoria lado a lado, pode-se manipular e distorcer a realidade, ação comumente efetuada nas universidades brasileiras, colocando o conhecimento fora de alcance da sabedoria, do poder de reflexão e pensamento próprio, além de servir o conhecimento como coisa, como produto do saber, produto cultural que necessita da legitimação e aprovação acadêmica.

            Mas afinal, qual o papel do educador em nossa sociedade atual?Será ele utopia ou possibilidade?Terá ele lugar?Algum dia teve?Onde estará ele e o que fazer para resgatá-lo?A paixão é o segredo do sentido da vida (Rubem Alves). E é pela paixão que vivemos e nos lançamos no mundo. Somos livres e, ao mesmo tempo tão aprisionados no mundo, aprisionados nas escolhas diante do mundo, e diante da própria liberdade, condição ambígua e estranha do homem. Como Elis Regina já dizia em uma música, “viver é melhor que sonhar”, e sonhar pode nos custar caro demais, pagar o preço da realidade, dar de cara no muro do mundo, da realidade, é um preço mais alto do que viver sonhando pelo que já está instituído, pelo que é menos perigoso. Assim, é mais fácil se viver pelo caminho do instituído, caminho da grande massa, da busca desenfreada pelas promessas do sonho do consumo, do status, do poder e do dinheiro (ditados pela mídia ao imaginário social) do que buscar descobrir ou tentar buscar o que vale a pena nessa vida, seja em conhecimentos, seja em sentimentos, comportamentos e valores, o que é a realidade, como ela se nos apresenta, por piores as cores que ela possua.

 A educação nos parece, quase sempre, um belo sonho teórico quando é ouvida de fora, mas nos aparece em sua bela realidade quando é vivida de dentro, do coração, e de dentro da sala de aula. Lá se encontra um lugar real e concreto. Tão concreto que, às vezes, lhe roubam alguns sonhos por detrás das paredes descascadas do descomprometimento público com a educação, da falha política e social com seu lugar e papel. Mas é pelas janelas da sala, que entram a luz, e, da janela, há vista de um belo céu azul de um dia ensolarado. É o lugar do coração daqueles que não abandonaram um sonho, em meio aos que estão cansados (muitos com a própria falta de reconhecimento) que é possível acreditar naqueles que estão ali para aprender, muitas vezes sem sequer sonhar, coisa que bem cabe ao jovem e às crianças que habitam em todos nós. Quando a educação é vivida na vida, quando ela se relaciona com a realidade concreta, é capaz de atravessar seus limites, tornando-a melhor. A educação compreende um mundo próprio, que busca alcançar uma visão do todo da realidade. O lugar do ontem, do hoje, do amanhã e do agora, e sempre, pra nunca morrer. Um lugar que não poder morrer, esse é o educador, lá está ele, um lutador no meio da massa, olhando para além do horizonte, com riquezas no coração e na mente, com uma alegria real e não utópica, nadando contra toda a corrente, buscando sempre algo melhor de sua parte, na esperança e na certeza dos frutos que serão colhidos por aqueles que o acompanham, e o acompanharam um dia, na busca de um mundo melhor.

 

 


[1]Não há propriamente uma proposta humanista nestes meios de comunicação, mas uma continuidade do processo de desumanização do homem. Essa desumanização se reflete nos demais segmentos de nossa sociedade, dando-nos a impressão de ser um processo irreversível”. (Elvira Eliza França, Comunicação e Relação Pedagógica, pág.1).

 

 

 

[2]A sociedade contemporânea tem na racionalidade instrumental o eixo em torno do qual se organizam todos os seus aspectos, não apenas o econômico e o político, mas também o cultural, assim como a realidade vivida pelo homem na relação com o poder, consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Realiza o processo de reificação, ao transformar a razão instrumental e o modelo de economia, de política e de vida por ela administrado, de produto histórico do homem, em um poder separado da realidade humana e superior a ela, que a governa de fora. Trata-se de um poder que se justifica pelos resultados da dominação e do controle exercido sobre a natureza, pela capacidade de oferecer ao homem o progresso tecnológico, cujo significado se converte, num processo de alienação, em sinônimo de progresso da vida humana”. (Valéria De Marco Fonseca, Ciência, Tecnologia e Sociedade, pág. 7)

 

 

[3] “Há várias maneiras antidemocráticas de lidar com o pensa­mento, mas as principais talvez sejam as seguintes: em primeiro lugar, impedir que um sujeito tenha o direito à produção da cultura - o que se pode fazer, no plano da cultura letrada, pela exclusão de uma classe social, ou, no plano da cultura popular, por sua trans­formação em folclore e pela oposição piedosa entre o "tradicional" e o "moderno". Em segundo lugar, impedir que um sujeito tenha o direito de acesso aos produtos da cultura e do saber - o que se pode fazer, nas sociedades liberais, pela indústria cultural, e nas sociedades autoritárias, pela censura. Em terceiro lugar, desenvolver um ideal de conhecimento tal que suas divisões internas não sejam determi­nadas pela própria produção do saber, mas por razões sociais e políticas determinadas, como é o caso, por exemplo, do desenvolvimento tecnológico que conhecemos, elaborado de maneira a excluir de seu conhecimento todos aqueles que deverão ser reduzidos à con­dição de meros executantes de um saber cuja origem, sentido e fi­nalidade lhes escapa inteiramente”. (Marilena Chauí, O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador, pág.4).

[4]Com o advento da indústria como poderia o artesão sobreviver?” (Rubem Alves, O preparo do educador, pág. 2).

 

 

[5]Educadores, onde estarão? Em que covas terão se escondido? Professores há aos milhares. Mas professor é profissão, não é algo que se define por dentro, por amor. Educador, ao contrário, não é profissão; é vocação. E toda vocação nasce de um grande amor, de uma grande esperança”. (Rubem Alves, O preparo do educador, pág. 1).

 

[6]Frequentemente o educador é mau funcionário, porque o ritmo do mundo do educador não segue o ritmo do mundo da instituição”. (Rubem Alves, O preparo do educador, pág. 3).

 

 

[7] “Ah! Desco­briu-se que a educação, como tudo o mais, tem a ver com institui­ções, classes, grandes unidades estruturais, que funcionam como se fossem coisas, regidas por leis, e totalmente independentes dos su­jeitos envolvidos. E daí chegamos a esta posição paradoxal de que, para se conhecer o mundo humano, é necessário silenciar sobre os homens. Antes de tudo, é necessário um "anti-humanismo" me­todológico. A realidade não se move por intenções, desejos, tris­tezas e esperanças. A interioridade foi engolida. Sobre este ponto concordam as mais variadas correntes científicas. O mundo huma­no é o mundo das estruturas e seu determinismo”. (Rubem Alves, O preparo do educador, pág. 4).

 

 

[8] (Rubem Alves, O preparo do educador, pág. 4).

 

[9]Vivemos num mundo dominado por aquilo que a ideologia dominante convencionou designar como progresso tecnológico. Resultado da exploração física e psíquica de milhões de homens, mulheres e crianças, da domesticação de seus corpos e espíritos por processo de trabalho fragmentado e desprovido de sentido, da redução de sujeitos à condição de objetos sócio-econômicos, manipu­láveis politicamente e pelas estruturas da organização burocrático­administrativa, o progresso seqüestra a identidade pessoal, a responsabilidade social, a direção política e o direito à produção da cultura por todos os não dominantes”.

(Marilena Chauí, O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador, pág.3).

 

 

[10] “... notamos a aliança intrínseca entre uma certa concepção da ciência, da tecno1ogia, da profissiona1ização e do pro­gresso que não só indicam a morte da pedagogia como arte de ensinar, mas revelam também o novo papel conferido à escola: além de reprodutora de ideologia e das relações de classe, está destinada a criar em pouco tempo, a baixo custo e em baixo nível, um exército alfabetizado e letrado de reserva. Para compreendermos o que signi­fica transformar a pedagogia em ciência, o educador em cientista prático (técnico) e o aprendizado em  criação de força de trabalho, precisamos avaliar o significado da cultura contemporânea como po­deroso agente de exclusão e de intimidação social e política”. (Marilena Chauí, O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador, pág.3).

 

[11] (Marilena Chauí, O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador, pág.5).

 

[12] “Pensar é trabalho da reflexão. O conhecimento se move na região do instituído, o pensamento, na do instituinte”. (Marilena Chauí, O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador, pág.5).

 

Artigo: "Educador: utopia ou possibilidade?" 

Cristiane Garcia Dias dos Reis

 

                                                                                                                     

“... Mas também vós, ó juízes, deveis ter boa esperança em relação à morte, e considerar esta única verdade: que não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois da morte, que os deuses não se interessam do que a ele concerne; e que, por isso mesmo, o que hoje aconteceu, no que a mim concerne, não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser libertado das coisas deste mundo. Eis também a razão por que a divina voz não me dissuadiu, e por que, de minha parte, não estou zangado com aqueles cujos votos me condenaram, nem contra meus acusadores. Não foi com esse pensamento, entretanto, que eles votaram contra mim, que me acusaram, pois acreditavam causar-me um mal. Por isto é justo que sejam censurados. Mas tudo o que lhes peço é o seguinte: Quando os meus filhinhos ficarem adultos, puni-os, é cidadãos, atormentai-os do mesmo modo que eu os vos atormentei, quando vos parecer que eles cuidam mais das riquezas ou de outras coisas do que da virtude. E ,se acreditarem ser qualquer coisa não sendo nada, reprovai-os, como eu a vós: não vos preocupeis com aquilo que não lhes é devido. E, se fizerdes isso, terei de vós o que é justo, eu e os meus filhos. Mas, já é hora de irmos: eu para a morte, e vós para viverdes. Mas, quem vai para melhor sorte, isso é segredo, exceto para deus". 

 

 

Trecho da última fala de Sócrates antes de tomar a cicuta (erva, veneno) condenado a morrer injustamente.

 

Apologia de Sócrates - Platão

 

 

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